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terça-feira, 25 de julho de 2017

Homenagem ao Escritor da minha vida - Vânia Moreira Diniz

Vânia Moreira Diniz
Homenagem ao Escritor da minha vida

Vânia Moreira Diniz

Escrever é a conscientização de tudo que se encontra interiormente e é transcrito



durante toda uma vida. Ficção, realidade ou ambas mescladas estão ali formando as

frases que a alma do escriba deixou em versos ou prosa.

Assim como qualquer artista, o escritor derrama sua sensibilidade, sabedoria,

experiência, aprendizado ou análise literária ou técnica com a mesma profundidade do

ator que o representa ou do artífice que molda suas obras com a alma nas mãos.

Passado, presente ou futuro o escritor está sempre sob a influência de imagens ou

conhecimentos que se fixaram e é repassado com o instintivo calor do talento ou dom

com que foi agraciado.

Falo na minha família porque foi lá que observei os primeiros movimentos antes mesmo

de entrar no colégio e quando ainda não tinha noção do que estava sendo feito.

Meu avô, Raymundo de Monte Arraes foi o grande artífice, o artesão das palavras que

pouco depois eu lia encantada, admirando o valor do conteúdo que estava ali entre os

milhões de livros que compunham sua biblioteca.

Raymundo de Monte Arraes
Com ele aprendi o sentido da vida, o valor da escrita e da leitura e observei o quanto

queria passar aos jovens o seu conhecimento para que eles pudessem adquirir “algo que

ninguém lhes podia tirar”.

Sua casa sempre cheia de estudantes e de colegas escritores foi uma fonte de

conhecimento para mim e quando aos seis anos disse a ele que queria ser escritora, senti

em seus olhos uma chama de emoção que na ocasião não poderia saber o que

significava. Hoje imagino que ele não tivesse muito certeza de minha resolução pela

pouca idade, mesmo assim na mesma hora passou a me chamar de “minha pequena

escritora” o que foi para mim um motivo de alegria e orgulho.

A partir daí comecei a escolher nas bibliotecas de meu pai e avô os livros que os autores

que me chamavam atenção, mas como já disse várias vezes os primeiros livros sem

figurinhas que li foi Monteiro Lobato, autor pelo qual me apaixonei perdidamente. E daí

em diante não parei mais de ler compulsivamente.

Hoje é dia do escritor e isso me comove não só pela figura mais importante de minha

história que foi meu avô, mas pelos muitos autores que fizeram com que eu me alheasse

do mundo completamente e vivesse as páginas que “devorava” com sofreguidão.

Agradeço a meus pais, meus avós, meus mestres que me orientaram e deram uma

oportunidade ímpar e uma visão da vida, do mundo, valores imprescindíveis e a todos

os autores e educadores por intermédio dos quais pude dar passos importantes na minha

vida dedicando-me à escrita com amor inigualável.

Na oportunidade desejo dizer o quanto é importante conviver com meus colegas,

escritores brilhantes que iluminam meu caminho e a todos os colaboradores de um

trabalho que me absorve e que sem eles não teria sido possível realizar.

No entanto peço licença a todos para homenagear especialmente ao Escritor Raymundo

de monte Arraes, meu avô com quem aprendi a essência de todos os valores primordiais

da existência e encontrei o incentivo e a orientação para que pudesse persistir na escrita

com fascinação.

Pena que neste momento de um mundo globalizado, progressos estupendos e

conscientização de minha própria experiência ele não possa estar aqui. Mas tenho

convicção, que de onde estiver estará apreciando os frutos que deixou em seus livros,

um dos quais foi reproduzido e homenageado pela Universidade Nacional de Brasília

(UNB)

domingo, 2 de julho de 2017

ARQUITETURA DE ESPANTOS - João Carlos Taveira*


  



Acabo de ler Sortilégio possível, ainda inédito, mas certamente o mais maduro livro de poemas de Ivan Marinho. E talvez o mais oral e visual, desde que aprendeu a descansar os pincéis para abraçar a poesia, uma vez que se divide agora em “três metades” distintas: as artes cênicas, as artes pictóricas e a literatura. Sem contar, naturalmente, a inconfundível disposição para voar.




“FRAGMENTO DO ACASO
Sem gravidade flutuam
Estilhaços de um espelho
E cada parte reflete
Um fragmento do acaso.

Giram dando a impressão
De serem um universo
E são, de certo, mil vezes,
A expressão original

Da mesma parte perdida
A se olhar eternamente.
Ali, imagem pra sempre,
Como se fosse real.

E menos se vê no mundo

E no mundo só se vê
Como entérica alegria
Buscando a rima vazia
De não ser, só parecer.”


Pois bem. O livro está simetricamente construído sobre dois eixos: poemas curtos e estrofes de quatro versos, algumas rimando, mas a maioria sem rima alguma, bastando-lhes, quando muito, a métrica para alcance do ritmo e da plena musicalidade. Ivan se mostra muito à vontade nas redondilhas menor e maior, e grande parte dos seus poemas encontra-se esculpida em versos brancos.

“ORORUBÁ

Dançando em sua cabeça
Voltas ocres de corridas
Ondulam verdes cabelos
Juntos, outros, ao redor.

Em cada volta, a memória
Gesta um breve esquecimento
Para no centro um encontro
Ancestral se revelar.

Memória de gerações
Despertada em sentimentos
Perdidos anos a fio
Das lembranças, das histórias...

E se cabelos são matas,

Tantas voltas, todos um,
No meio da ebulição
Surge, como larvas, homens
E a guerra se faz canção.”

       
Outra característica do autor deste novo trabalho é o lirismo, não o lirismo raquítico e sifilítico magistralmente referido por Manuel Bandeira, mas o lirismo sadio e arejado de quem sabe das agruras da vida e também das delícias do sobrevoo. Ivan, com seus versos, lúcidos e antenados, sabe que o sonho por si só não basta, é preciso colher “nas miragens munição para usá-la quando no descaminho, na vil presença avessa e inesperada”. Por isso, sem titubeio, vem praticando uma poesia também de preocupação social, em que o homem, embora sujeito aos desmandos, é senhor absoluto do rumo de seus ideais. Basta ir à luta.

“PAI, PERDOAI!

Massa, úmida, de barro
Amassada pelas mãos
Cúmplices ou desconhecidas
Modelando a intenção.

Bloco que forma e reforma
Sempre perfeito, pois um,
Quando deforma ignora,
Se não se compara algum.

E cresce lá, grande barro,
Sem jamais querer o forno
Se o fim é a eternidade:
Quente nem frio, só morno.

Sucedem mãos, outras mãos,

Tão mesmas a modelar
A forma que se desfaz
E se refaz sem mudar
Porque não sabe o que faz.”

        Sortilégio possível, editado como merece, há de demarcar um terreno fértil e promissor para o pouso deste arquiteto de espantos. Ivan Marinho, além de amplidões, nuvens e cores, tem, desde já, espaço seguro na grande seara da nova poesia brasileira.
  
Brasília, 15 de abril de 2014.
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*João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados. Em 1994, recebeu do GDF a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília, por relevantes serviços prestados. Pertence ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, à Associação Nacional de Escritores, à Academia Brasiliense de Letras, entre outras.


quinta-feira, 22 de junho de 2017

O CAMINHO DO VENTO João Carlos Taveira*


  
           

Comecei a ler aos quatro, cinco anos. Aos sete, aprendi a voar. O primeiro voo, nas asas de um condor, desvendou as alturas da Cordilheira dos Andes, mais detidamente o chão do Chile de Gabriela Mistral, de Pablo Neruda. (Meu pai, com sua pequena biblioteca hispano-americana, possibilitou esse e outros voos.) Depois, naturalmente, planei em céu nativo: Castro Alves, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, José Lins do Rego, José Mauro de Vasconcelos. Ainda bem que a escola ensinava planos de voo, e outras línguas, como latim, francês. Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e alguns outros, só aos treze, quatorze anos. O destino ainda era incerto. Mas já estava traçado o caminho do vento.
           
Federico García Lorca
 Mas por que meus vizinhos precisavam de tradução? Por que não escreviam no meu idioma? Não demorou, veio a conscientização política e tudo se resolveu para o jovem aprendiz. Eram tempos de busca, de procura e de muita curiosidade para uma adolescência inquieta e ávida de sonhos. (O Atlântico podia ser imenso, largo e profundo, mas já havia sido desvendado e não tinha mais segredos.) Assim, antes dos vinte, asas crescidas, resolvi sair em busca de novas aventuras. E me fiz íntimo de Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno, Federico García Lorca, Juan Ramón Jiménez, Antonio Machado, Pedro Salinas... E da santa que também gostava de voar: Teresa de Ávila.
           
 Por isso, quando vejo uma pipa no céu, lembro-me das páginas imorredouras que adejavam diante dos meus olhos. E agradeço ao Destino a oportunidade de ter aprendido a conhecer novas e distantes plagas da literatura universal. São poetas, contistas, novelistas, almas aladas, com as quais aprendi a importância do voo e a dimensão da vida. Da minha vida. 
             Hoje, pássaro feito, revejo o panorama das letras ibero-americanas a estender-se soberano sob minhas asas renovadas.  E do Parnaso me vêm os cânticos de outras vozes poderosas a juntar-se, sob minhas penas, às reminiscências de um mundo distante, porém sempre novo.

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*João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados. Em 1994, recebeu do GDF a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília, por relevantes serviços prestados. Pertence ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, à Associação Nacional de Escritores, à Academia Brasiliense de Letras, entre outras.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

GRITOS E SUSSURROS - Eugênio Giovenardi


IVAAN HANSEN  Óleo sobre tela
A confusão mental tomou de assalto, aqui e alhures, os ideais e os comportamentos de políticos e de líderes de movimentos e organizações sociais. A complexidade das relações humanas e destas com a natureza se origina e se amplia com o aumento da população da espécie sapiens no limitado espaço do planeta. Quem manda sobre quem e quem administra os bens da natureza são questões restritas à perplexa comunidade do homo sapiens.
A liberdade de pensar e a expressão de decisões e ideias requerem serenidade para ouvir e silêncio para refletir. Sair às ruas, aos milhares, gritar palavras de ordem, dispor-se a lutar fisicamente para entronizar propostas e interesses grupais não parece a melhor nem a mais adequada atitude mental para dialogar.
Eugênio Gionenardi

Multidão nas ruas contra multidão fechada em casa dificilmente conseguirá ouvir a pergunta e a resposta desejadas. Pensar não é um direito. É uma função essencial do cérebro. No grito e na marra é ainda a fase preliminar da evolução cerebral. O pensamento que alimenta a convivência entre as pessoas e entre estas e a natureza não brotará do grito nem frutificará na marra.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A história de um povo combativo - Pedro César Batista



domingo, 4 de junho de 2017


Cabanagem
Fala-se do povo brasileiro como se ao longo dos séculos fosse um povo covarde, acomodado e que passivamente aceitasse a opressão e a exploração das classes dominantes, fossem estas os colonizadores portugueses ou as oligarquias nacionais. Os fatos mostram o contrário, pois os índios, os camponeses, os operários, os estudantes e a população mais pobre do Brasil têm sido corajosos e combativos, enfrentando a violência, a tortura, a perda-morte e o exílio, impostos pelos governos e os mais ricos para que desistam de defender os seus direitos. A história nacional é repleta de lutas, movimentos e conquistas dos setores populares e proletários, muito diferente do que as classes dominantes propagam e tudo fazem para apagar da memória coletiva popular os momentos heroicos, combativos e ousados, demonstrados pelo povo brasileiro. 

Para comprovar isso, segue uma síntese de lutas travadas pelos melhores filhos do povo brasileiro que, desde a ocupação dos colonizadores até os dias atuais, não se curvaram, nem se sujeitaram à escravidão ou à violência imposta pelos poderosos ou o Estado. Estudar cada momento da história nacional, em que houve resistência e enfrentamento na defesa dos direitos, da justiça e da igualdade, cada vez mais é uma necessidade para formular um novo tempo, em que não haja mais conciliação, nem traição aos maiores interesses das classes trabalhadoras e do povo brasileiro na caminhada pela construção de uma sociedade livre, solidária, justa e igualitária.

Algumas das lutas e movimentos por justiça foram: 

1556 – Confederação dos Tamoios - Revolta indígena contra a escravidão que os portugueses praticaram contra os povos indígenas. Ocorreu no litoral entre Bertioga (SP) e Cabo Frio (RJ). Foi liderada por Cunhambebe, mais os chefes indígenas Pindobuçú, Koakira, Araraí e Aimberê, de tribos situadas ao longo do Vale do Paraíba dos povos Goitacazes, Termiminós, Aimorés e Tupinambás (majoritários). Combateu os portugueses e todos que os apoiassem, como os Tupiniquins, que se aliaram aos colonizadores.


ZUMBI


1585 – Quilombo dos Palmares – Organizado por um grupo de escravos fugitivos, formado por índios, negros e brancos. Seu primeiro nome foi Jaguaribe, tendo se desenvolvido e se tornado uma confederação de diversos quilombos na região, com mais de 30 mil habitantes ao longo de toda a extensão da serra da Barriga, entre Pernambuco e o rio São Francisco. Possuiu governo, exército, relações com outros governos e desenvolveu o resgate da cultura africana, originária das terras do negros sequestrados pelos colonizadores. Zumbi, sua principal liderança, foi assassinado em 20 de novembro de 1694. 




1723 – Guerra de Manaus – Resistência dos povos indígenas na região do rio Negro à ocupação dos portugueses. Liderados por Ajuricaba, que não perdoava os índios traidores, capturando-os e vendendo-os para os holandeses como escravos. Pouco a pouco, ele – Ajuricaba - foi conquistando mais terras e contando com a ajuda de mais de trinta nações indígenas que formavam uma espécie de confederação na luta contra os portugueses. A resistência durou até a prisão de Ajuricaba e de centenas de guerreiros pela tropa portuguesa. Preso, Ajuricaba foi levado de canoa para Belém, quando se jogou no rio e nunca mais foi encontrado, nem vivo e nem morto. 

1750 – Guerra Guaranítica – Resistência dos povos guaranis ao tratado entre Portugal e Espanha, que os transferiam de um lado para o outro do rio Uruguai. O principal líder foi Sepé Tiaraju. Defendiam o direito legítimo dos índios em permanecer nas suas terras. Apesar da inferioridade, no tocante a armamentos e a instrução militar, os guaranis resistiram a ataques isolados ou conjugados de portugueses e espanhóis até 1767, graças à sua tenacidade na luta, às táticas desenvolvidas e à condução de chefes como Sépé Tirayu e Nicolau Languiru.

1789 – Inconfidência Mineira - Luta pela liberdade e contra a opressão do governo português. O grupo, liderado por Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes, era formado pelos poetas Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, o dono de mina Inácio de Alvarenga, o padre Rolim, entre outros representantes da elite mineira. A ideia do grupo era conquistar a liberdade definitiva e implantar o sistema de governo republicano em nosso país. Sobre a questão da escravidão, o grupo não tinha uma posição definida. Estes inconfidentes chegaram a definir até mesmo uma nova bandeira para o Brasil. Ela seria composta por um triângulo vermelho num fundo branco, com a inscrição em latim: Libertas Quae Sera Tamen (Liberdade ainda que Tardia), atual bandeira do Estado de Minas Gerais. Tiradentes teve como punição a forca; Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e outros receberam a pena de exílio na África.

1796 – Revolta dos Alfaiates – Ocorreu na Bahia. Formada por negros e brancos, soldados e artesãos, escravos e libertos, inspirados pela Revolução Francesa, pretendiam conquistar a independência do domínio português com uma sociedade igualitária. A participação popular e o objetivo de emancipar a colônia e abolir a escravidão, marcaram uma diferença qualitativa desse movimento em relação à Inconfidência Mineira, que formada por uma composição social mais elitista, não se posicionou formalmente em relação ao escravismo, enquanto os conjurados baianos buscavam o fim da escravidão e a emancipação da Bahia. 

1824 - Confederação do Equador – Movimento separatista e republicano, que agregou setores sociais diversos, desde os usineiros até escravos libertos. O movimento, de caráter político, que visava a separação do Brasil, transformou-se em luta armada, que impôs a Convenção de Beberibe, e determinou a expulsão do governador para Portugal e a eleição pelo povo, de uma nova junta de governo. Frei Caneca determinou o fim do tráfico negreiro, o que levou a divisão do movimento. Das centenas de pessoas que participaram da revolta nas três províncias, somente 15 foram condenadas à morte, dentre elas, a de Frei Caneca e Padre Mororó. 




1834 – Cabanagem – Movimento popular, composto por camponeses, índios, caboclos e negros. Combateu a miséria, o latifúndio, a escravidão e a opressão dos dirigentes do Império e do governo regencial da província. É considerado o maior e único movimento na história do Brasil em que as camadas populares e empobrecidas ocuparam o poder, permanecendo por dez meses à frente do governo local, até serem derrotados pelas tropas portuguesas e inglesas. Os cabanos, internados na selva, lutaram até 1840, até serem completamente exterminados. Nações indígenas foram chacinadas - os murá e os mauê praticamente desapareceram. Mais de 30 mil cabanos foram mortos. Foram liderados por Padre Batista Campos, Antônio Vinagre e Eduardo Angelim. Este foi o último governador cabano, que não se entregou e acabou preso e enviado para Fernando de Noronha.

1838 - Balaiada – Rebelião popular que assolou as províncias do Maranhão, Ceará e Piauí de 1838 a 1841. A denominação provém da alcunha Balaio, dada a um de seus líderes, Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, fabricante de cestos. Reuniu pretos e mulatos, os chamados “bodes”, que, aliados a índios e cafuzos, sem-terra e sem direitos, uniram-se contra os portugueses e seus descendentes, que constituíam a classe dominante. Foi um conjunto de lutas dos sertanejos marcado pelo desejo de vingança social contra os poderosos da região.

1845 – Revolução Praieira - Influenciados por ideais liberais e socialistas e liderados pelo general Abreu e Lima, pelo capitão de Artilharia Pedro Ivo Veloso da Silveira, pelo militante da ala radical do Partido Liberal, Antônio Borges da Fonseca, e pelo deputado Joaquim Nunes Machado, os praieiros iniciaram em Olinda e o movimento espalhou-se rapidamente por toda a Zona da Mata de Pernambuco. Em seguida, lançaram o Manifesto ao Mundo, com as seguintes reivindicações: voto livre, liberdade total de imprensa, direito ao trabalho, nacionalização do comércio varejista, adoção do federalismo, reforma do poder judiciário, extinção dos juros, abolição do sistema de recrutamento, expulsão dos portugueses.

1896 - Canudos – Reuniu sertanejos, homens e mulheres, liderados por Antônio Conselheiro, que começaram a organização de um povoado onde teria “rios de leite e mel”. Iniciaram a sua organização, de forma comunitária, recebendo sertanejos que para lá se deslocaram acreditando que poderiam viver de forma igualitária e justa. Foi duramente atacado pelo exército do Império, a pedido da igreja e dos proprietários, que se sentiram ameaçados. Segundo Euclides da Cunha, em Os Sertões: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos, e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5.000 soldados”. Deixou um saldo 25 mil mortos.

1912 – Contestado – Mobilizou posseiros pobres, negros, mestiços e indígenas, contra a violência do governo republicano, que expulsou milhares de camponeses de suas terras em Santa Catarina, para a construção da ferrovia entre São Paulo e o Rio Grande do Sul, pela empresa norte americana Brazil Railway, que recebeu do governo, como parte do pagamento, as terras em uma faixa de quinze quilômetros de cada lado da ferrovia. Os trabalhadores rurais e os trabalhadores desempregados, após a inauguração da estrada de ferro, formaram um vilarejo, sendo atacado pelo exército, após uma heroica resistência, até serem assassinadas mais de 5 mil pessoas. 




1917 – Greve Geral - Paralisação geral da indústria e do comércio do Brasil, em Julho de 1917, como resultado da constituição de organizações operárias de inspiração anarcosindicalista aliada à imprensa libertária. Esta mobilização operária foi uma das mais abrangentes e longas da história do Brasil. Nunca na história deste país uma greve geral provocou um impacto tão grande aos proprietários e capitalistas. Os trabalhadores pediam melhores condições de trabalho e aumento de salário. Depois de cinco dias de paralisação geral, os grevistas tiveram suas reivindicações atendidas. 

1922 – Fundação do Partido Comunista do Brasil – PCB – Durante o congresso realizado nos dias 25, 26 e 27 de março de 1922, em Niterói, surgiu em meio ao contexto internacional com a vitória da Revolução Soviética de 1917, e da criação da Internacional Comunista em 1919. Sua primeira Comissão Central Executiva foi formada por Abílio de Nequete, escolhido Secretário-Geral, Astrojildo Pereira, Antônio Bernardo Canellas, Luís Peres e Antônio Gomes da Cruz, com Cristiano Cordeiro, Rodolfo Coutinho, Antônio de Carvalho, Joaquim Barbosa e Manoel Cendón, na suplência. As resoluções congressuais apontaram para a necessidade de uma fase democrático-burguesa na revolução brasileira, indicaram a aliança política do proletariado com a pequena burguesia radicalizada, representada pelo tenentismo, visto como um movimento propenso a abraçar a luta contra o imperialismo e pela superação dos entraves semicoloniais ou semifeudais. Os comunistas davam os primeiros passos de uma longa trajetória marcada pela participação ativa nas lutas em defesa dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens, dos negros, pelas liberdades democráticas e pelo socialismo. 




Olga Benário
1925 - Coluna Prestes – Movimento de origem tenentista, que reuniu 1.500 homens, durou 18 meses e percorreu 25 mil quilômetros, sem perder nenhuma batalha travada com os militares enviados pelo governo. Foi liderada por Luís Carlos Prestes e Miguel Costa e defendia a reforma agrária, o direito ao voto, a obrigatoriedade do ensino fundamental, combatia a miséria e o autoritarismo imposto pelo governo de Washington Luís. No final, Prestes se exilou na Bolívia.






Marighella
1935 – Levante antifascista - Aliança Nacional Libertadora (ANL), firmada na trilogia “Terra, Pão e Liberdade”. A revolta armada explodiu em novembro de 1935 em algumas cidades do país, com destaque para a insurreição popular em Natal, Rio Grande do Norte. Foi a reação ao crescimento das forças fascistas no Brasil e ao fechamento da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Movimento político plural, que tinha objetivos nacionais e democráticos, anti-imperialistas e antilatifundiários, com um programa popular revolucionário, como não reconhecimento e não pagamento da dívida externa; jornada máxima de oito horas; seguro social; aposentadorias; aumento de salários; isonomia salarial e garantia de salário mínimo; fim do trabalho escravo; eliminação dos latifúndios; amplas liberdades democráticas; supressão dos privilégios de cor e raça; total liberdade religiosa com a separação entre Igreja e Estado; oposição às guerras imperialistas; estreitamento de relações com as demais nações latino-americanas; solidariedade com todas as classes e povos oprimidos do mundo. Apesar de sua derrota e de seus erros, a ANL deixou o exemplo de dedicação às causas dos trabalhadores e do povo, demonstrando que o caminho para a derrota das forças da reação e do imperialismo passa pela organização, mobilização e unificação da classe trabalhadora e dos setores populares. 

1950 – Guerrilha de Trombas e Formoso - Tinha de um lado camponeses sem terra e, do outro, grileiros. A Revolta foi uma das poucas lutas camponesas vitoriosas no Brasil republicano. Após a vitória do movimento, o camponês José Porfírio foi eleito deputado estadual. Com o golpe de 1964, Porfírio foi caçado e preso pelos militares e está desaparecido, desde a década de 70. Foi um dos movimentos mais importantes que já ocorreram no estado de Goiás. A luta camponesa da década de 50 tem sua história escondida, por ter sido a primeira assim dirigida pelo Partido Comunista do Brasil, marcando o encontro da luta camponesa com a ideologia proletária, em que os camponeses defenderam armados o seu direito à terra. Foi quando o Partido Comunista travou conhecimento com José Firmino, e depois com José Porfírio, e começaram a fazer um trabalho paciente de politização dos camponeses para a luta, ao mesmo tempo, que, se uniam a eles, até a criação de uma Associação dos posseiros, em que se organizaram as massas camponesas. Dessa associação, da qual participavam todas as famílias, surgiram outras, o chamado Conselho dos Córregos, que tinha em cada região um conselho o qual era eleito por todos da área. Até mesmo um Quartel General Feminino chegou a ser organizado por mulheres sob a direção de Dirce Machado, à época membro do Partido Comunista do Brasil – PCB. 

1946 – Ligas Camponesas - Foram associações de trabalhadores rurais criadas inicialmente no estado de Pernambuco, posteriormente na Paraíba, no estado do Rio.de Janeiro, Goiás e em outras regiões do Brasil, que exerceram intensa atividade no período que se estendeu de 1955 até a queda de João Goulart em 1964.. Em poucos anos, as ligas camponesas atuaram em mais de 30 municípios e começaram a espalhar-se pelos estados vizinhos do nordeste. As Ligas Camponesas ganharam destaque, entre os levantes populares do campo, através das estratégias de luta e pela multiplicação de focos de conflito utilizada contra a ordem, sendo essa uma das razões para a repressão do movimento por parte dos grandes latifundiários e também, do poder público. Lideradas por Francisco Julião, deputado do PSB, as ligas obtiveram o apoio do Partido Comunista (PCB) e de setores da Igreja Católica. Conseguiram reunir milhares de trabalhadores rurais na defesa dos direitos do homem do campo e da reforma agrária, sempre enfrentando a repressão policial e a reação de usineiros e latifundiários. Durante o Regime Militar de 1964, Julião e seus principais líderes foram presos e condenados.

1966 – Guerrilha do Caparaó – Organizado pelo Movimento Nacionalista Revolucionário, articulado por Leonel Brizola. A ação ocorreu na serra do Caparaó, localizada na divisa dos estados de Minas Gerais com Espírito Santo, tendo como inspiração Sierra Maestra, em Cuba. Foi desarticulado em 1967, com a prisão de todos os militantes. 

1967 – Aliança Libertadora Nacional – ALN – Fundada por Carlos Marighella, depois que saiu do PCB. No mesmo ano de sua formação a ALN inicia ações sua organização a nível nacional. Desenvolveu ações armadas para se defender do arbítrio e violência praticadas pela ditadura. Realizou assaltos a bancos, a carros pagadores, inclusive um assalto espetacular a um trem pagador da Santos-Jundiaí para levantar recursos para estruturar o movimento de resistência. Também realizou atentados com bombas caseiras, como o ataque ao consulado americano em São Paulo, em 1968. Seus dirigentes foram capturados pelos DOPS, de São Paulo, que foram torturados até falarem onde estava o comandante. Em 4 de novembro de 1969 foi armada uma armadilha que fuzilou, de forma covarde, Carlos Marighela, na Alameda Casa Branca, em São Paulo. A partir do homicídio de Marighela, Joaquim Ferreira, conhecido como Toledo e também ex membro do PCB passa a liderar o aparelho até ser preso em 23 de outubro de 1970 onde teria sido torturado até a morte. Neste mesmo ano outro importante componente da organização é morto pelo DOPS, desta vez, Eduardo Collen Leite além de ter sido torturado teve seu corpo mutilado. A ditadura prendeu ou matou todos seus militantes.




1967 - Guerrilha do Araguaia – movimento organizado pelo Partido Comunista do Brasil para resistir à violência da ditadura de 64. Formado por militantes de todo o país, que se deslocaram para a região sul do Pará, conhecida como Bico do Papagaio, desenvolveram ações humanitárias na região, formada por camponeses pobres, completamente abandonados à própria sorte pelo Estado. Em 1972, as forças armadas descobriram o movimento, levando milhares de soldados para a região para reprimir o movimento, que resistiu por três anos. Durante a perseguição, os militares torturaram os camponeses para que informassem a localização dos militantes. No total mais de 80 militantes foram mortos. Os que foram presos, terminaram assassinados, não tendo ainda sido localizados os corpos de mais de 50 guerrilheiros. Na segunda metade da década de 70, o ex-coronel do exército reformado, Paulo Malhães, que chefiou uma missão de "limpeza" na área, atuou para dar fim aos corpos dos guerrilheiros abatidos. Disse o militar que eles foram desenterrados, tiveram os dedos das mãos e as arcadas dentárias arrancadas para impedir a identificação e jogados nos rios da região, em sacos plásticos impermeáveis cheios de pedras com peso calculado, depois de terem as barrigas abertas para evitar que inchassem e flutuassem. Malhães afirmou que o método usado no Araguaia para sumir com os corpos foi igual ao usado contra os mortos da guerrilha em áreas urbanas. 

1985 – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST – Organização de camponeses sem terra que atua em todo o Brasil, tendo obtido importantes vitórias ao longo de sua história, como o assentamento de milhares de trabalhadores rurais. Preserva sua mobilização, com a organização de acampamentos que lutam para ser assentados. Tem uma estrutura organizacional muito forte, estruturada por meio de cooperativas de agricultores familiares. Luta pela reforma agrária e uma sociedade mais justa e fraterna. Tem presença constante nas diversas lutas desenvolvidas pelos trabalhadores brasileiros e em todo o mundo, integrando a Via Campesina, organização internacional de camponeses. 

1997 – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST – Nasceu da luta dos trabalhadores rurais sem terra que atuaram nas cidades ao longo da marcha de um ano após o massacre de Eldorado dos Carajás, que percorreu o Brasil rumo a Brasília. Organiza os trabalhadores urbanos na luta por moradia e contra o modelo de desenvolvimento capitalista.

Referenciais não faltam para a caminhada por justiça.

Diante de tantas ações de resistência dos povos indígenas, dos negros e das classes trabalhadoras brasileira, ao longo dos 517 anos, desde a chegada dos colonizadores, fica evidente que o povo brasileiro é de luta e combativo. O que sempre existiu foi uma ação articulada, por parte das classes dominantes, utilizando o estado, a universidade e a comunicação de massa, para negar a história das lutas populares e revolucionárias ocorridas ao largo da história nacional. Tentam passar a ideia, e conseguem em grande parte, de que o brasileiro é um povo que se sujeita à escravidão e à exploração sem resistir. Mentiras que se propagam ao longo do tempo, mas que são facilmente desmascaradas.

Nesses séculos, foram realizados pelas classes dominantes muitos massacres contra o povo (cabe outra pesquisa vasta), especialmente quando as camadas empobrecidas e exploradas se organizam para lutar por seus direitos. Foram dizimados centenas de povos indígenas, assassinados milhões de escravos e diariamente seguem matando os mais pobres, as camadas populares e a juventude. O feminicídio existente no país é resultado dessa prática genocida, aceita como normal, e que o patriarcado carrega e propaga, com o machismo e a misoginia.

Considerando apenas o período mais recente da história, limitando a partir do golpe de 1964, foram assassinados por latifundiários e pelo Estado milhares de trabalhadores rurais, sendo que a violência do latifúndio, da monocultura e da impunidade de assassinos e mandantes segue como se fosse algo natural.

Uma das causas da impunidade reinante para os dirigentes das classes dominantes assassinas foi a imperfeição nas transições ocorridas na história nacional. Os torturadores e assassinos das ditaduras de 1945 e 1964 permaneceram/permanecem impunes, apesar de serem conhecidos os seus executores e os crimes praticados, a maioria de militares, que agiram contra o seu próprio povo. Mesmo sendo do conhecimento público, o parlamento e a justiça, com a conivência da imprensa e setores estratégicos da intelectualidade brasileira, permanecem calados e aceitam a convivência com criminosos que deveriam ter sido julgados e condenados e seguem livres, alguns até com mandatos parlamentares e recebendo aposentadorias por terem praticados crimes contra a população brasileira.

Somente existindo a preservação da memória histórica das lutas do povo, as quais possibilitaram avançar nas conquistas dos direitos civis, sociais e políticos que toda a sociedade usufrui, será possível impedir os retrocessos que batem às portas do país. Os oligarcas e serviçais dos (neo)colonizadores tudo fizeram e farão para manter seus privilégios e riquezas, conseguidos por meio da escravidão, do roubo e da traição aos verdadeiros interesses e necessidades da maioria do povo brasileiro.

Preservar a memória é uma necessidade para assegurar a dignidade humana, impedir que os crimes praticados em nome de setores dominantes se repitam e sejam aceitos por quem não conhece o passado de lutas do nossos antepassados. Um passado heroico e glorioso, que deve ser conhecido e propagado. Preservar a memória de Ajuricaba, Sepé, Zumbi, Prestes, Zé Porfírio, Olga Benário, Marighella, Lamarca e tantos homens e mulheres que não se curvaram e se dispuseram a combater para acordar o amanhã, fazê-lo sorrir para que todos e todas pudessem sonhar e construir uma sociedade justa, igualitária e fraterna é uma tarefa histórica e fundamental para a efetivação da emancipação humana.

Exemplos de ousadia, combate e resistência são faltam. Avante, sempre!!!

*Pedro César Batista – escritor, poeta, jornalista e bacharel em Direito.

Referências e fontes:

http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/confederacao-dos-tamoios/
http://brasilescola.uol.com.br/historiab/a-confederacao-equador.htm
http://brasilescola.uol.com.br/historiab/quilombo-dos-palmares.htm
http://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/?revoltas_categoria=1722
http://www.historiadobrasil.net/brasil_colonial/guerra_guaranitica.htm
http://brasilescola.uol.com.br/historiab/inconfidencia-mineira.htm
http://www.infoescola.com/historia/revolta-dos-alfaiates/
http://www.infoescola.com/historia/cabanagem/
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/balaiada-1838-1841-revolta-popular-no-maranhao.htm
https://www.todamateria.com.br/os-sertoes-de-euclides-da-cunha/
https://geekiegames.geekie.com.br/blog/100-anos-de-guerra-do-contestado-resumo/
http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/greve-geral-de-1917/
https://pcb.org.br/portal2/10702
http://www.infoescola.com/historia/coluna-prestes/
http://anovademocracia.com.br/no-81/3628-o-levante-popular-armado-de-1935
https://trombaseformoso.wordpress.com/2009/02/24/trombas-e-formoso-a-vitoria-dos-camponeses/
http://www.ligascamponesas.org.br/?page_id=99
http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/guerrilha-do-caparao/
http://vermelho.org.br/noticia/180122-1
http://www.mtst.org/
https://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2011/02/26/a-luta-por-moradia-e-pelo-direito-a-cidade/


Pedro César Batista
Jornalista, escritor e educador ambiental
Coordenador Geral do Movimento Cultural de Olho na Justiça

(61) 98322 9805

terça-feira, 6 de junho de 2017

A POESIA DO CERRADO João Carlos Taveira (*)




      
Vendas
A poesia de Emerson Vaz Borges, pelo cenário que descortina e pelos temas que apresenta, pode lembrar em uma primeira leitura o universo do poeta mato-grossense Manoel de Barros. Depois, entretanto, o leitor é conduzido para outras paragens menos minimalistas. Emerson procura contato com paisagens e personagens de um mundo em expansão, enquanto Manoel de Barros se detém num terreno típico de ciscos e gravetos — microuniverso que, muita vez, escapa ao olhar humano. São ambos poetas do Centro-Oeste brasileiro, mas com suas temáticas distintas e equidistantes no reino das palavras.

       Emerson Borges canta a fauna e a flora do cerrado, com seus verbos nervosos e inquietos, regidos por preocupação ambiental e movidos unicamente por instinto de defesa. E assim, seu livro O cerrado vive em mim (Thesaurus, 2011) percorre, adverso à contenção da forma, os caminhos de uma eloquência verbal muito próxima da crônica de costumes. São árvores, flores, frutos, rios, lagos, pássaros, insetos a testemunhar a evolução do homem — da infância até a idade adulta — pelos caminhos da natureza, em perfeita sintonia com o ambiente em que foi criado.

      
Daniel Barros, João Carlos Taveira e Emerson Vaz Borges
Nesse livro, meio arqueológico, meio documental, perpassa também a visão saudosista de quem sabe dos alvoroços surgidos na sociedade contemporânea com relação às políticas de preservação das florestas em nosso país. Suas mensagens procuram, todavia, o registro do que é belo e necessário à perpetuação das espécies no planeta. Por esse ângulo, é um canto de louvor ao homem simples da região e ao habitat natural de outros seres, que também veem ameaçadas sua casa, sua vida, sua sobrevivência.

       Escritos em versos livres, com rimas consoantes e toantes, os poemas que compõem esta coletânea trazem, junto ao título, em latim, o nome científico de cada espécie referida (vegetal ou animal) e, ao pé da página, um verbete dos significados etimológicos de cada termo. O poeta compete, assim, com o notável botânico Pio Corrêa, em seu magistral Dicionário de Plantas Úteis do Brasil. Trata-se de um trabalho minucioso, de importância literária e ambiental, que há de enriquecer a leitura em diversos níveis de abordagem.


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João Carlos Taveira
(*) João Carlos Taveira é poeta e ensaísta. Tem vários livros publicados e está ultimando mais um de poesia: Biografia do Instante, que deverá sair até o fim do ano.





     

sexta-feira, 2 de junho de 2017

ENTERRO SEM DEFUNTO, DE DANIEL BARROS - João Carlos Taveira*



João Carlos Taveira e Daniel Barros
Daniel Barros não é só uma promessa, mas uma revelação da nova literatura brasileira. E o romance foi o gênero escolhido para expressão de suas inquietações, de seu estar no mundo. Depois do sucesso do livro de estreia (O sorriso da cachorra), chega a este Enterro sem defunto com grande vigor criativo e amadurecido domínio das técnicas exigidas pela modernidade. Sua oficina romanesca, de certa forma, amplia o discurso tradicional na busca de uma dicção própria, em que elementos ficcionais entrelaçam fatos históricos com fatos cotidianos vivenciados pelo autor. A originalidade, todavia, é meta precípua deste alagoano determinado e audacioso.        
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O enredo do livro, com utilização de flashback, se desenvolve em múltiplos planos da ação narrativa, para desaguar, como em um filme noir, no suspense, mas sem final feliz. O narrador, embora onisciente, detém-se mais em sugestões do que em afirmações... E deixa tudo em aberto. Cabe ao leitor interpretar o conteúdo e escolher o desfecho que melhor lhe aprouver. 
A linguagem utilizada nunca é rebuscada, embora cuidadosa no apuro vocabular e sintático. Daniel Barros, a partir de suas vivências, como já foi dito, veicula ideias muito próprias acerca do mundo recriado. E, à maneira de um Graciliano Ramos, de um Ernest Hemingway, por exemplo, não esconde o desconforto e o pessimismo diante de certos acontecimentos da vida e se rebela, às vezes, contra soluções inconsequentes do Poder Público. 
Enterro sem defunto, pela ousadia do conteúdo, merece, desde já, lugar certo em nossa estante e deve receber o devido reconhecimento de leitores e de crítica. É o mínimo que se espera.

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João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais se destacam O Prisioneiro, Canto Só, Aceitação do Branco, A Flauta em Construção, Arquitetura do Homem. Tem poemas traduzidos para o Espanhol, o Italiano, o Romeno e o Russo e pertence a várias entidades, tais como Associação Nacional de Escritores, Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e Academia Brasiliense de Letras.

terça-feira, 30 de maio de 2017

UMA OBRA EM VERDE MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA - João Carlos Taveira


Em meados do século XIX, o naturalista britânico Charles Robert Darwin alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução das espécies e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural. O mundo, perplexo, demorou um pouco para absorver tamanha ousadia. Mas acabou cedendo em sua resistência, para a felicidade geral das nações.

Editora Kiron 
Hoje, um século e meio depois, o ecossociólogo Eugênio Giovenardi propõe uma teoria semelhante, em termos científicos e revolucionários. Uma Obra em Verde (2015) está para o futuro da vida no planeta como A Origem das Espécies (1859) está para a compreensão da vida em todas as suas dimensões. E não há nisso nenhum exagero.

Diante da evolução dos meios de produção e dos avanços tecnológicos, não existe mais espaço para abstrações como “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. A questão agora é outra. Como o homem irá sobreviver junto às outras espécies, sem exterminá-las? Como irá garantir vida ao solo e à água, sem preservar rios, nascentes, árvores, florestas? Como haverá de lidar com a superpopulação e a escassez, sem destruir a vida de seus semelhantes com atitudes cada vez mais tacanhas e irracionais?

Se Darwin introduziu a ideia de evolução a partir de um ancestral comum, por meio da seleção natural, e esta se tornou a explicação científica dominante para a diversidade de espécies na natureza, Eugênio Giovenardi está a nos dizer a plenos pulmões que, mesmo diante das dificuldades de aceitação e respeito à ecocomunidade, é possível salvar o homem que caminha a passos largos rumo a sua própria extinção.
Eugênio Giovenardi

Uma Obra em Verde é uma proposta ousada, porém simples, que deve figurar urgentemente como manual de sobrevivência em todas as comunidades leigas e científicas. E é, antes de tudo, o testemunho de um homem que, em mais de quarenta anos, vem observando, estudando e respeitando a vida em suas mais diversas manifestações, e agora quer compartilhar conosco as suas preocupações legítimas com relação ao futuro das espécies.

E Eugênio Giovenardi também nos diz que a Terra, apesar de tudo, continuará girando a trinta quilômetros por segundo em volta do Sol, independentemente do homem, que poderá estar aqui ou não.


Brasília, 11 de setembro de 2015.   


João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de vários livros publicados, entre os quais Arquitetura do homem (poesia) e A arquitetura verbal de Nilto Maciel (fortuna crítica). Em 1994, recebeu do Governo do Distrito Federal a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília. E em 2002 foi eleito para a Cadeira n.º 26 da Academia Brasiliense de Letras, cujo patrono é o poeta simbolista Cruz e Sousa.



domingo, 28 de maio de 2017

PEQUENA RESENHA LITERÁRIA - Daniel Barros

PEQUENA RESENHA LITERÁRIA


Daniel Barros*

       
Nilton Maciel
Hoje tive a grata surpresa de receber novo livro de Nilto Maciel – Gregotins de desaprendiz –, que me deixou ansioso para ler. O último que li foi MENOS VIVI do que fiei palavras, livro que me encantou e me surpreendeu. Como o próprio Nilto diz, e concordo com ele: “Gosto de surpresas...”, referindo-se a um romance que lia no momento, e que não a estava encontrando no tal romance.
       Acredito que MENOS VIVI do que fiei palavras é um livro que deveria ser lido por todos que pretendem se tornar escritores. Acho que não foi esta a intenção dele, mas à medida que comenta outros autores, dá uma lição de como escrever um bom livro, é evidente. Mais uma vez concordo com Nilto: “... arte não se aprende. É talento, vocação, inspiração, predestinação. Seguidos de aprendizado, paciência, trabalho, dedicação.” Estão servidas as suas “dicas” a este segundo momento do trabalho.

       Foram muitos os momentos em que me identifiquei com o autor em seus relatos, o que me deixou menos desamparado, menos só, como na seguinte passagem: “A leitura para mim ocorre, fundamentalmente, por dever (de escritor) e por falta de ocupação melhor. Para renovar a literatura, é preciso ler muito.”
       Sem dúvida, como bem diz o poeta João Carlos Taveira, Nilto Maciel é um dos escritores mais completos da moderna ficção brasileira, como também o foram Graciliano Ramos, Machado de Assis, entre outros mestres da nossa literatura.

*Daniel Barros é autor do romance O sorriso da cachorra Editora Thesaurus 2011, Enterro sem defunto, LER editora 2013, Mar de pedras Thesaurus 2015.



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Palavra do Editor - Abril de 2017 - Arisson Tavares


Nossa sugestão de leitura para o mês de abril de 2017 foi Mar de Pedras, de Daniel Barros.
www.amazon.com.br/Mar-pedras-Daniel-Barros

Nesta obra, a terceira do autor, os leitores são transportados para uma vila do interior de Alagoas. A cada página, os costumes e pratos típicos da região ganham força. Nunca estive lá, mas consegui experimentar a simplicidade de viver em um lugar assim.

O livro conta a história do Henry Melo, que é um fotógrafo totalmente profissional e, por conta disso, vive viajando a trabalho. Ele é um rapaz honesto e preocupado com causas sociais. Por conta de sua popularidade na região, surgem boatos de uma possível candidatura, desagradando políticos da região.

Apesar de ser bem visto por todos que o conhecem, Henry tem uma grande fraqueza: mulheres. A narração começa a ficar mais picante quando vem à tona as aventuras amorosas dele. Sem limites ou restrições, ele se envolve até mesmo em orgias com a mulher do prefeito da cidade, que nunca está presente quando a comunidade precisa.

Porém, surge na história Francesca, que o fascina de uma maneira diferente. A prova disso é que a atração pela mulher não é só física. Com isso, Henry rapidamente se envolve com a modelo, que corresponde a cada sentimento dele. O fotógrafo a pede em namoro e volta para Alagoas, envolto de saudade.

Poderia ser apenas uma linda história de amor, mas o passado começa a interferir na ficção. Primeiro, por meio de Bruna, a mulher do prefeito da cidade, com quem já teve um caso. Henry mostra sua fraqueza diante das seduções dela e, quanto mais tenta fugir, mais intensa fica a situação.

O uso de bebidas alcoólicas, algo que parece ser bem forte na região, também está presente em quase todos os capítulos do livro. Os drinques e coquetéis são citados com nomes e a escolha deles demonstra até mesmo o sentimento do personagem.

Impossível não analisarmos algumas semelhanças entre o autor e o personagem. Os dois dividem a paixão por fotografia e por Alagoas. O fato de o escritor ser pós-graduado em segurança pública também levanta alguns debates sociais sobre o papel do policial nos diálogos do livro. 

Arisson Tavares - Escritor e jornalista
Quando a história começou a cair em uma certa obviedade, surgiu um final que me impressionou. Enfim, gostei da obra por não seguir regras de um gênero literário específico. Isso deu a leitura um ar de surpresa a cada capítulo. Indico para todos os tipos de leitores, respeitando uma classificação indicativa mínima por conta de alguns capítulos mais quentes.